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A negação dos valores Parte 03


Num tempo em que princípios e integridade são conceitos em extinção no meio político, é hora de lembrar do legado do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill



Winston Churchill e generais americanos em 1945

O buraco até que não seria tão fundo se o “conceito de política” praticado pela presidente, pelo copresidente Lula e por seus fiéis fosse o único problema. Mas não é. Onde acaba essa tropa toda começa o resto do mundo político brasileiro — a oposição e os que, pelo menos, não têm emprego doado pela gente que manda.


De novo: alguém conseguiria mencionar um, apenas um, pensamento legítimo do governador Eduar­do Campos, declarado pelos meios de comunicação como o “novo fator” da vida pública nacional? E o senador Aécio Neves, então, escalado para a posição de número 1 dos opositores — no que ele realmente acredita ou no que se compromete de verdade, além de sua briga com o colega de partido e ex-governador José Serra? E os que foram tocados para fora do PT por se recusarem a roubar ou aceitar cambalachos políticos — o que mais têm em comum? Não se sabe.
A impressão é que os parti­cipantes da vida política brasileira e Churchill vieram de planetas diferentes. Mas é só impressão: vieram do mesmo, e o que os separa de forma tão espe­tacular é algo que costumava se chamar, em português comum, “vergonha na cara”. Trata-se de uma opção de vida. É adotada por pessoas capazes de sentir indignação moral diante de atos repulsi­vos para a própria consciência. É sacrifi­car as circunstâncias do momento, sempre, em favor de suas convicções reais. É a intransigência contra qualquer ação que seus valores não aceitem.
É a recusa em aprovar entendimentos, acordos ou situações em que haja injustiça indiscutível. É, em suma, nunca ser surdo para a voz da consciência nem cego para as consequências de seus atos. Na política, enfim, significa a capacidade de ver que os governos só fazem sentido se prestarem serviços aos governados, colocarem-se sinceramente como servidores do público e agirem o tempo todo para sustentar direitos legítimos e impedir a vitória da injustiça.
Certezas morais 
Não existe rigorosamente nada, aí, que só um homem como Churchill pudesse fazer ou que só a sua época permitisse fazer — é uma postura aberta a qualquer um, em qualquer tempo. Na verdade, Churchill não era um tipo de político excepcional, privativo das zonas temperadas e pertencente a uma espécie que não sobrevive nos trópicos. Só chegou ao cargo de primeiro-ministro aos 66 anos de idade. Viveu, antes disso, no entra e sai do governo, como dezenas de outros na Inglaterra de sua época, e chegou a ser demitido de um posto ministerial sob a acusação de incompetência.
Tinha problemas sérios com o al­coolismo, uma vida pessoal conturbada e um notável talento para construir inimizades. Seu triunfo foi o conjunto de certezas sobre o que pensava e o que devia fazer. Não se trata, por exemplo, de certezas como as do ex-presidente Lula — que acredita ser um equivalente de Abraham Lincoln por causa da quantidade de críticas que recebe na imprensa — ou as da presidente Dilma, para quem a queda de raios não tem nada a ver com as quedas de energia elétrica. Trata-se de certezas morais.
No caso de Churchill, ele tinha certeza de que jamais, em caso algum, aceitaria que seu país fosse ocupado por tropa estrangeira, que os ingleses tivessem de aprender alemão ou que a Gestapo tomasse prédios nas cidades inglesas para instalar neles seus centros de interrogatório e tortura. Simplesmente não poderia admitir, como afirmou em seu discurso, a presença do “odioso regime nazista” na Inglaterra. Estava falando de valores, que não poderiam ser mudados ou negociados — e é disso, precisamente, que vem a fé extraordinária que demonstrou nas próprias palavras.
“Nós lutaremos na França, nós lutaremos nos mares e oceanos, nós defenderemos nossa ilha, custe o que custar”, disse ele, nas frases que antecederam as suas quatro palavras imortais. “Nós vamos lutar nas praias, nos pontos de desembarque, nos campos e nas ruas; nós lutaremos nas colinas. We shall never surrender”. Ditas essas palavras, Churchill não fugiu; não foi se exilar no Canadá ou na Austrália. Ficou em Londres, no seu posto, e correu o mesmo risco de morrer nos selvagens bombardeios nazistas contra as cidades inglesas que corriam todos os cidadãos de seu país.
Não quis discutir pontos de doutrina jurídica com os pares, na época, do ministro Marco Aurélio de Mello. Não queria saber se o Ibope ia aumentar ou baixar seus índices de popularidade. Nunca pensou nas próximas eleições. Apenas considerou, como a primeira-minista Margaret Thatcher faria 42 anos depois na invasão das Malvinas pela Argentina, que a guerra declarada pela Alemanha era algo errado. Se era errado, não podia ser aceito. Se não podia ser aceito, tinha de ser combatido. O que impede, hoje, os homens públicos brasileiros de pensar assim? Nada.
Por que não se comportam como homens que têm valores? Porque não querem. A presidente da República e toda a classe política do Brasil não precisam procurar valores em figuras históricas, ou em outras eras, ou em outros continentes. Têm à sua volta dezenas de milhões de brasileiros que passam a vida inteira sem tirar para si um único centavo que não seja honestamente seu. Recusam-se a viver na criminalidade; preferem trabalhar duro a cada dia, por salários em geral modestíssimos, a desrespeitar a lei. Sustentam, com esforços muitas vezes heroicos, sua família. Vivem em silêncio. São exemplos perfeitos dos valores e princípios que matam de rir todos os devotos do “conceito de política” que comanda o Brasil de hoje.

Fonte: Exame.com

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