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A negação dos valores Parte 2


Num tempo em que princípios e integridade são conceitos em extinção no meio político, é hora de lembrar do legado do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill

Winston Churchill e generais americanos em 1945

A questão é saber, nessa gente toda, quem estaria disposto a arriscar a própria vida na defesa de uma convicção moral, na recusa em aceitar o mal no lugar do bem ou na intransigência total em favor da integridade e contra a safadeza. É isso, apenas — é o que Churchill fez e o que qualquer pessoa pode fazer, na guerra ou na paz, se colocar os valores da decência comum como mandamento número 1 de seus atos.

Se o mundo em geral está assim, imagine onde fomos amarrar nosso burro aqui no Brasil. Num artigo recente em sua coluna quinzenal na revista VEJA, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo descreveu o universo político brasileiro como um deserto sem fim, onde é impossível a existência de qualquer forma de vida — ou, melhor dizendo, qualquer forma de vida pública capaz de ter um mínimo de utilidade para o país e para sua população.
O ovo da serpente é que não existe política no Brasil, mas, sim, um “conceito de política”, peculiar à nossa terra e à nossa gente; esse “conceito”, escreve Pompeu, nega a possibilidade de uma vida pública em que os embates envolvam a diferença de ideias, programas ou modelos propostos para a gerência da educação, dos transportes ou seja lá o que for. Tudo, absolutamente tudo, é feito na exclusiva defesa de interesses particulares.
Valores? Princípios? Integridade? Separar o certo do errado? Abolir os acordos indecentes para obter apoio? Tomar alguma decisão, uma apenas, motivada pela obediência a um mandamento moral? O “conceito de política” no Brasil não apenas ignora essas coisas mas tem certeza de que todas elas são estupidez em estado puro. A presidente da República pensa e age assim; e, abaixo dela, todos vão exatamente pela mesma trilha.
Há exceções, é claro — sempre há. Mas o que comanda de fato a vida pública brasileira é o tráfico de emendas parlamentares, a compra e venda de cargos no governo e em estatais, a criação de ministérios absurdos para atrair o apoio dos que vão recebê-los, o comércio de minutos de propaganda obrigatória na TV, a submissão sem limites aos “índices de popularidade” e assim por diante.
Fábrica de ministérios
Como é possível, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff nomear para o Ministério da Agricultura, em sua última “reforma ministerial”, um político ligado a um sinistro matadouro clandestino em Minas Gerais? Justo para o Ministério da Agricultura? Não haveria nenhum outro disponível para ele e seu partido? E não haveria, em 190 milhões de brasileiros, nenhum cidadão um pouquinho mais adequado para ser o ministro da Agricultura do Brasil? Se fosse um caso isolado, ainda daria para engolir. Infelizmente, como mostra a experiência, não há casos isolados nesse tipo de decisão — muito menos depois de dez anos seguidos de aplicação do “conceito de política” hoje em vigor no país.
A presidente criou, para contratar aliados, e só para isso, um Ministério da Micro e Pequena Empresa. Será que estaria pensando em criar, mais adiante, um Ministério da Média Empresa ou mesmo um Ministério da Grande Empresa? Criou um Ministério da Aviação Civil. E por que não um da Marinha Civil? Marinheiro também é filho de Deus — e, de mais a mais, já existe um Ministério da Pesca, cujo ministro confessa que não sabe colocar um anzol na linha. O interesse do país, em todas essas decisões, é zero. Só importa quem vai ganhar o quê e qual o potencial de aproveitamento material dos cargos criados.
O resultado, ao mesmo tempo, é aquele sugerido pela aritmética elementar. Quanto mais ministérios — e mais cargos —, tanto mais vai se roubar. Dilma sabe disso melhor do que ninguém. Já teve de colocar no olho da rua, por exposição indecente em público, uma dúzia de ministros e talvez centenas de delinquentes que instalou na máquina pública, inclusive seu braço direito, secretária executiva e sucessora na Casa Civil, a inesquecível Erenice Guerra. É claro, portanto, que sabe — só que não liga. Troca os que não dá para segurar por farinha do mesmo saco, que só serve para assar um tipo de pão. A consequência é o que está aí — um governo aberto ao primeiro batedor de carteira que se apresentar como reforço para a “base aliada”.

Fonte: exame.com

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