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"Processo expõe hipocrisia do governo dos EUA", diz advogado de Assange

Simpatizantes do presidente equatoriano, Rafael Correa, protestam na Praça das Armas, em Quito, em apoio à concessão de asilo diplomático ao hacker australiano: Equador se dispõe a dialogar com o Reino Unido (Gary Granja/Reuters)
Simpatizantes do presidente equatoriano, Rafael Correa, protestam na Praça das Armas, em Quito, em apoio à concessão de asilo diplomático ao hacker australiano: Equador se dispõe a dialogar com o Reino Unido

Julian Assange obteve o que desejava com seu discurso proferido da sacada da Embaixada do Equador, em Londres, na manhã de anteontem. Ao pedir que o presidente norte-americano, Barack Obama, faça a “coisa certa” e interrompa a caça às bruxas ao WikiLeaks — o site de vazamento de documentos confidenciais, fundado por ele —, o hacker australiano capitalizou a atenção mundial e forçou uma resposta dos Estados Unidos. O contra-ataque veio 24 horas depois, por meio da porta-voz do Departamento de Estado, em Washington. De acordo com Victoria Nuland, as declarações de Assange são “absurdas”. “Ele está claramente tentando desviar as atenções do centro da questão”, afirmou ela, referindo-se aos crimes de abuso sexual dos quais o líder do WikiLeaks é acusado pela Suécia. Christine Ann Assange, mãe de Julian, saiu em defesa do filho e devolveu as críticas aos EUA. “O governo dos Estados Unidos está desviando a atenção do tema real: a perseguição do editor-chefe do WikiLeaks por expôr os crimes de guerra e a corrupção”, afirmou ao Correio, em entrevista pela internet.

Às vésperas da reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), Nuland também centrou fogo no Equador. Segundo a representante de Washington, Quito tenta “criar problemas” na entidade — o governo de Rafael Correa convocou para sexta-feira o encontro dos chanceleres dos 34 países-membros da entidade. A pauta se restringirá ao caso Assange. A porta-voz fez questão de frisar que o tema diz respeito somente ao Reino Unido, à Suécia e ao Equador e não é apropriado discuti-lo na OEA. “Não vemos por que a OEA possa desempenhar um papel em uma situação hipotética, que não parece iminente”, disse, ao abordar uma suposta invasão da Embaixada do Equador pela Scotland Yard, a polícia britânica.

Policiais da Scotland Yard diante da embaixada, em Londres, enquanto Julian Assange (na sacada, D) discursava no domingo (19/8) (Chris Helgren/Reuters)
Policiais da Scotland Yard diante da embaixada, em Londres, enquanto Julian Assange (na sacada, D) discursava no domingo (19/8)

MICHAEL RATNER, ADVOGADO DE JULIAN ASSANGE NOS EUA, FALA AO CORREIO. LEIA A ENTREVISTA:
Como o senhor vê a disposição do Equador em negociar com o Reino Unido?
O Equador tem se disposto a negociar com o Reino Unido e Suécia durante todo o tempo. No entanto, esses governos nada ofereceram. O Reino Unido se recusa a garantir que não aprovará a extradição de Assange, se recusou a dar o salvo-conduto e, em vez disso, faz ameaças ilegais de invadir a embaixada. A Suécia se nega a garantir que não extraditará Assange aos EUA e se recusa interrogá-lo em Londres. Tenho certeza de que o Equador não entregará Assange às autoridades britânicas, a menos que haja uma garantia absoluta de que ele não será enviado aos EUA.

De acordo com a imprensa britânica, a permanência indefinida de Assange na embaixada torna o Reino Unido mais vulnerável e sob pressão. O senhor concorda?
O Reino Unido realmente cometeu um grave erro ao ameaçar invadir a embaixada. Tratou o Equador como se fosse uma colônia vassala. Jamais faria tal ameaça a uma grande potência, como os Estados Unidos e a China. Eu acho que o Reino Unido está sob intensa pressão para dar a Assange livre-conduto, por ele ter o status de asilado. Mas o Reino Unido também tem grande pressão dos EUA e frequentemente age como parceiro dos EUA, ao realizar más ações. A guerra do Iraque é apenas um exemplo. Julian Assange teve um grande apoio no Reino Unido e, no fim disso, a Organização dos Estados Americanos (OEA) pode forçá-lo a dar o salvo-conduto.

O Departamento de Estado norte-americano considerou absurdos o discurso de Assange sobre a "caça às bruxas" contra o WikiLeaks. Como viu essa reação de Washington?
Os Estados Unidos e o Reino Unido farão qualquer coisa que puderem para chamar a atenção ao que está ocorrendo: o esforço dos EUA em processar Julian Assange por expôr a criminalidade e a hipocrisia do governo americano. Querem dar um exemplo, com Assange, para desencorajar a revelação da verdade no futuro. Como um dos advogados de Julian Assange, eu estou familiarizado com os esforços nos EUA em processá-lo; e esses esforços continuam. Eu quero ser claro: Julian Assange não pediu para receber asilo por causa das acusações na Suécia. O Equador não concedeu asilo a Assange por causa das acusações na Suécia. Assange tem asilo porque está sendo perseguido por suas opiniões políticas. Se o pedido sueco para a extradição fosse realmente para questionar Assange, a Suécia teria aceito a oferta do Equador para interrogá-lo em Londres. Não o fez. Então, o Reino Unido fez uma ameaça de invadir a Embaixada do Equador -- algo contrário ao direito internacional fundamental de proteção às embaixadas. Eu pergunto: o Reino Unido relamente teria ido a tal extremo se fosse meramente para interrogar Julian Assange? Os EUA e sua porta-voz Victoria Nuland deveriam declarar que não processarão Assange -- até que o façam, as palavras dos EUA serão sem sentido.

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